Você gosta de quem você é hoje?

Eu tinha 9 anos e havia ganhado de presente um Game Boy Color. O primeiro portátil da Nintendo a exibir cores em sua tela! Eu mergulhei profundamente na minha nova aquisição, jogando vários jogos, como Super Mario Land 2 e TLoZ: Link’s Awakening. Mas como um garoto de 9 anos não tem dinheiro pra ficar comprando jogos novos, eu costumava pegar jogos emprestado com o colega do curso de inglês que também tinha um Game Boy. Ele tinha muito mais jogos do que eu. Toda aula ele levava os jogos e eu escolhia um. Na semana seguinte, eu devolvia o jogo e escolhia outro. Teve uma vez que ele trouxe os jogos e entre os cartuchos cinzas e pretos (que eram a cor padrão dos cartuchos de Game Boy), havia um cartucho azul. O fato dele ser de uma cor diferente me chamou a atenção e por por isso que eu decidi pegar aquele jogo emprestado. Por causa da cor.

Era um jogo chamado Pokémon. Tão logo comecei a jogar me deparei com uma escolha que marcaria minha memória durante muito tempo. Eu tinha que escolher um monstrinho para começar o jogo. Qual deles? Dúvida cruel. A semana passou e eu tive que devolver o jogo, antes mesmo de terminá-lo. Mas eu já estava decidido. Eu precisava saber como terminava. Alguns meses depois, eu tive uma surpresa muito feliz, pois minha mãe decidiu comprar um presente pra mim, um jogo de Game Boy. O jogo da fita azul. Dessa vez eu joguei até o final, até a captura do tão misterioso Mewtwo. Que jogo! Logo após isso, soube que o desenho animado do Pokémon iria passar no Cartoon Network. Eu já estava aficionado.

Durante os anos seguintes, vi a série toda na televisão e colecionei o álbum de figurinhas (o único álbum que eu completei na vida). O vício foi tão grande que, quando os novos jogos da franquia foram lançadas no japão (versões Gold e Silver), eu baixei um programa que emulava o videogame portátil no computador e joguei o jogo todinho, até o fim, em japonês mesmo. Eu não comecei a gostar de Pokémon porque todo mundo gostava. O que me levou a gostar do jogo foi aquele cartucho azulzinho, quando eu tinha 9 anos. Um jogo que me cativou. Apenas isso. E foi a descoberta desse jogo que me levou a tantos momentos que me enchem de uma nostalgia gostosa, lembrando das batalhas contra meus colegas de classe, das noites onde eu quebrava a cabeça para entender o japonês do jogo no computador, de conversar com meus amigos sobre os bugs do jogo (MissingN0, quem lembra?) ou até do rumor de que se podia capturar o Mew atrás do S.S. Anne, que ficava em Vermillion.

É uma nostalgia que tem gostinho de infância. De amigos. De diversão. Foi uma época muito boa da minha vida. Não havia compromissos, contas a pagar, problemas para lidar, falsos amigos, dificuldades nem aborrecimentos. Foi uma época simples, lembrada pelos olhos daquela criança curiosa, que gostava de descobrir coisas novas e não tinha preocupações.

O tempo passou. A franquia cresceu e mudou. Os 150 monstrinhos viraram 721. O garoto de 9 anos se tornou um adulto de 26. Eu continuei a gostar de videogames e de Pokémon, mas a paixão que eu tinha pela franquia diminuiu, pois eles mudaram e adicionaram tanta coisa que acabou perdendo um pouco do brilho pra mim. Eu cheguei a jogar algumas versões novas, mas não com o mesmo entusiasmo daquela criança de 9 anos, quando viu um cartucho azul pela primeira vez.

E então, recentemente, a Nintendo, em parceria coma Niantic, lançou Pokémon GO, que você, leitor, provavelmente já sabe do que se trata. O grande segredo: os monstrinhos do jogo são os 150 originais. Aqueles 150 monstrinhos do cartucho azul. Enquanto muitos estão aderindo ao hype, muitos também estão criticando.

“Isso é coisa de retardado.”

“Vai procurar trabalho!”

“Bando de vagabundo, não tem mais o que fazer.”

“Quando se sentir estúpido lembre que tem gente lá fora procurando por Pokémon.”

Embora sejam opiniões bem mal-educadas e agressivas, cada um tem o direito de ter sua opinião e essas pessoas merecem ser respeitadas. Mas aos meus amigos, que talvez tenham a mesma opinião, eu gostaria de apenas perguntar algo. Ao invés de rotular todos os usuários de um determinado aplicativo de estúpidos, retardados, vagabundos ou desocupados, o que vocês acham de entender porque o aplicativo foi um sucesso tremendo e porque alguns de nós ficamos tão felizes em jogar um jogo desses? Para responder essa pergunta, eu gostaria de fazer outras duas:

Relembrar um passado que te deu felicidade é algo “estúpido”? Relembrar a criança que nós fomos, as coisas que nós amamos e fizemos é “coisa de retardado”? Como vocês se sentem vendo um episódio de Chaves? Como vocês se sentem lendo Turma da Mônica? Como vocês se sentem comendo uma bala juquinha? Como vocês se sentem abrindo um caderno antigo da época do colégio? Ou achando um bilhetinho que um amigo escreveu pra você, quando você era pequeno? Quando você revira o armário e acha aquele bichinho de pelúcia que você não largava quando era criança? Quando você vê fotos daquela época? Você também sente nostalgia? Você também lembra com carinho daquele tempo?

É isso que muitos de nós sentimos ao jogar o jogo novo da Niantic. Não é modinha, é algo muito mais antigo, quando ser nerd não era “cool” e ninguém sabia o que era Star Trek, Senhor dos Anéis, Zelda, Homem de Ferro ou o Guia do Mochileiro das Galáxias. O que nós sentimos é nostalgia. Não quer dizer que nós jogamos um jogo 24h por dia também. Todos nós trabalhamos, pagamos nossas contas, alguns até vivem sozinhos, longe da família. Alguns de nós temos de cozinhar nossa própria comida e lavar nossa própria roupa. Cumprimos com nossos compromissos e cuidamos da família, mesmo se estamos longe deles. E mesmo com tantos afazeres, a gente acha um tempinho para jogar aquele jogo no celular porque a sensação sair por aí capturando Pokémon nos faz lembrar daquele garotinho que nós fomos um dia. Que tinha como objetivo ser um mestre Pokémon, porque a vida dele era muito mais simples. E então, a gente continua vivendo, enfrentando um leão por dia, cuidando da nossa vida e vencendo os problemas. Com a cabeça de um adulto, mas com um coração de criança.

Será que ter carinho por quem você foi é estúpido ou coisa de retardado? Eu, pessoalmente, acho que não. Eu tenho muito orgulho de lembrar de quem eu fui, pois se eu não tivesse sido aquela criança curiosa, inocente e alegre, que amava jogar videogame e vivia com o nariz enfiado nos livros, eu não seria quem eu sou hoje. E eu gosto muito de quem eu sou hoje.

 

ps1.: Além dos assuntos discutidos aqui, ainda temos casos de crianças que, apesar de autistas e quase nunca saírem de casa, estão andando pelas ruas todos os dias e fazendo amigos, por causa de um jogo no celular. Não é um caso isolado e é algo impressionante. Eu recomendo a leitura dessa matéria aqui.

ps2.: Para quem gostaria de entender um pouco mais sobre ter a cabeça de um adulto e um coração de criança, uma sugestão de filme: Procurem o filme “The Kid” (o título em português é “Duas Vidas”) e divirtam-se!

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