Sasebo

Lá estava eu, seguindo meu grande roteiro de viagem pelo Japão. 3 meses para conhecer os mistérios de Kyuushuu e Okinawa. À essa altura, eu já tinha desbravado Okinawa (com sua congregação de inglês impressionante), Miyako-jima (com sua água azul cristalina) e Ishigaki (com as arraias e uma vida submarina de tirar o fôlego) e havia conhecido Fukuoka também, a maior cidade de Kyuushuu, com seus famosos yatai (algo como pequenos quiosques que são montados nas ruas de Fukuoka, onde são servidos vários pratos típicos da região, juntamente com vários tipos de “comida de rua”) e agora estava na vez de Nagasaki!

Eu estava bem ansioso para conhecer Nagasaki. Como um fã da era Sengoku do Japão, eu sabia que a cidade de Nagasaki foi um grande porto português por algumas décadas no Japão. Por causa disso, existem alguns prédios de construção européia lá. Depois de 1634, a ocupação estrangeira foi limitada a Dejima, uma ilha artificial na baía de Nagasaki, onde os Holandeses ficaram por alguns séculos, tentando mediar o comércio do Japão com o exterior. Mesmo com a bomba nuclear que eles receberam no fim da segunda guerra mundial, Nagasaki conseguiu preservar muito da história exótica do Japão com o ocidente, uma história pouco conhecida e muito interessante (Pros interessados sobre o assunto, eu recomendo a leitura do livro “Shogun”, do James Clavell e o livro “The Thousand Autumns of Jacob de Zoet, do David Mitchell).

Além disso, havia um grupo de inglês das Testemunhas de Jeová em Nagasaki, segundo o site jw.org! Unindo o útil ao agradável, meu plano era ir para Nagasaki sábado de manhã e passar o fim de semana hospedado num hotel “europeu” para conhecer a cidade, apoiar o grupo, ir na reunião e sair no campo com os irmãos de lá. Porém, alguns imprevistos aconteram. Na sexta à noite um irmão de Fukuoka me informou que o grupo de inglês não fica na cidade de Nagasaki, mas na cidade de Sasebo, dentro do distrito de Nagasaki! Essa cidade ficava a 2h de distância de onde eu me hospedaria, atrapalhando grandemente o plano de conhecer o grupo. Então ele ligou para o coordenador do grupo e explicou a minha situação. Inesperadamente, o irmão de Sasebo então pediu para falar no telefone comigo.

A conversa a seguir foi bem interessante. Ele perguntou um pouco sobre quem eu era e se eu teria possibilidade de cancelar meu hotel em Nagasaki. Eu disse que sim. Então, o irmão me pediu para pegar um ônibus para Sasebo ao invés de Nagasaki. Apenas isso. Naquela noite eu cancelei meu hotel e minha passagem para Nagasaki e na manhã seguinte, eu fui para Sasebo, sem nem saber onde eu ficaria. O irmão que havia falado comigo pelo telefone me encontrou meio-dia na rodoviária, onde me levou para almoçar num restaurante de tenpura bem famoso da cidade. Segundo o meu novo amigo, aquele restaurante era conhecido pelo Japão inteiro e muitos vinham visitar a cidade para conhecer a culinária de lá. O mais interessante: o chef e dono do restaurante também era irmão!

Após nos deliciarmos com uma refeição bem gostosa, decidimos fazer um pouco de campo. Acompanhei o irmão em suas revisitas a diversos soldados da base militar de Sasebo, onde surpreendentemente fomos recebidos muito bem. Após uma tarde de campo ele me levou para sua casa, onde sua esposa nos esperava para fazer a janta. Para meu deleite, ela perguntou se eu gostaria de aprender a fazer gyoza e yakisoba (japanese style) e tivemos uma pequena aula de culinária que resultou num jantar maravilhoso. O casal então explicou que eu dormiria na casa deles aquela noite, mas no dia seguinte iria ficar hospedado na casa de outro casal do grupo. A noite terminou com um onsen em Takeo (uma cidade vizinha) onde eu experimentei o famoso banho japonês pela primeira vez da maneira como se deve ser apreciado. (coincidentemente, foi o onsen mais quente que eu experimentei no japão também, com a água a 45ºC!) E sim, eu tomei o café com leite no final.

No dia seguinte fomos para o campo do grupo de inglês, onde eu conheci os membros restantes: dois casais e duas irmãs solteiras. O grupo todo são 8 irmãos, 9 se contar com uma nigeriana testemunha de Jeová que estava visitando a cidade. Saí no campo com as duas irmãs, ambas muito zelosas. Tivemos excelentes experiências no campo, conseguimos abrir a bíblia e até marcar revisitas. Após o campo, eu fui convidado para almoçar pelo segundo casal do grupo de inglês. Eles me levaram para comer chanpon, um tipo de lamen de frutos do mar bem gostoso. Nesse almoço os irmãos me explicaram algo que me tocou profundamente. Como eu iria ficar apenas dois dias (sábado e domingo) na cidade, mas haviam 3 casais no grupo, eles decidiram que um casal me hospedaria no sábado, outro no domingo e o casal que não poderia me hospedar me levaria para almoçar. Quanto às irmãs que também não poderiam me hospedar, por motivos óbvios, elas iriam sair no campo comigo. O motivo? Todos queriam aproveitar o tempo com o estrangeiro que veio visitar o grupo deles!

Depois do almoço fomos para a reunião do grupo de inglês, que acontece ao mesmo tempo que a reunião da congregação japonesa do salão. Chegando lá, eu vejo o dono do restaurante de tenpura no salão! Embora ele não falasse inglês, com meu pouco japonês e com a ajuda de um irmão nós conversamos um pouco. Ele tinha um problema curioso: Ele não conseguia usar nenhum tipo de transporte sem passar muito mal. Isso significa que ele não coseguia andar de avião, de carro, de ônibus e nem de bicicleta. Era uma condição rara e que aparentemente não tinha cura. Por causa dessa condição, ele nunca havia viajado para fora de Sasebo. Ele, com mais de 80 anos, sempre viveu naquela cidade. Por isso, ele gostava muito de conhecer os irmãos que visitavam o grupo, para saber um pouco mais sobre os lugares que ele nunca conheceu. Conversamos bastante sobre o Brasil e sobre como no novo mundo, ele vai viajar pelo planeta inteiro, até o momento em que a reunião iria começar. Ele ficou no salão principal e eu fui pra sala B, pra reunião em inglês.

Na reunião do grupo, um ancião (o marido do casal que iria me hospedar naquela noite) fez um discurso excelente. A sentinela foi animada, com muitos comentários, apesar da dificuldade de todos com o idioma. Após a reunião era hora do campo, mais uma vez. Fizemos campo de rua, falando com os estrangeiros que passeavam pelo local e acabamos achando um filipino que havia estudado a bíblia a 20 anos atrás e tinha parado o estudo e agora queria voltar.

De noite, jantamos na casa do casal que me hospedaria, junto com as duas irmãs solteiras do grupo. Uma grande surpresa: Todos eles me deram presentes! Não só o casal e as irmãs solteiras, mas todos os membros do grupo de inglês quiseram me dar alguma coisa. Um irmão me deu um quadro com João 17:17 escrito em japonês (que eu pendurei na parede do meu quarto), outra irmã me deu uma grande porção de um tipo de udon que a família dela produzia. Era delicioso! O dia terminou com conversas espirituais e muitas risadas.

No dia seguinte, segunda feira, o irmão que me hospedara me levou até a rodoviária para voltar para Fukuoka, onde minha viagem continuaria. Nos despedimos e eu entrei no ônibus. Após esse fim de semana, eu conheci muitos outros lugares no Japão. Tive experiências maravilhosas. Mas, olhando para trás, se alguém me perguntasse qual foi a parte mais especial dessa viagem, eu teria que responder: Sasebo.

(algumas fotos desses dias maravilhosos em Sasebo podem ser vistas neste post!)

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